>"CARAS E BOCAS" (Globo, 2009) – Resenha crítica

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(Felipe Brandão)
Em um início nada monótono, Caras e Bocas dedicou-se a mostrar o público as desavenças do passado e o reencontro do par principal, a rica e voluntariosa Dafne (Flávia Alessandra) e o humilde e orgulhoso Gabriel (Malvino Salvador). Os dois tinham uma filha, fruto de um conturbado amor de adolescência, mas Gabriel não ficara sabendo disso graças a um complô entre o avô de Dafne, Jacques Conti (Ary Fontoura), e sua esposa Leia (Maria Zilda Bethlem), que fizeram Dafne acreditar que Gabriel a havia abandonado grávida. Por isso, Dafne jurara nunca mais se deixar envolver por um homem outra vez.

A história sofre uma virada quando Jacques supostamente morre em uma explosão, e seu testamento ordena que Dafne se case para assumir a herança e não vê-la passar às mãos da malvada Judith (Deborah Evelyn), enteada de Jacques. A filha da mocinha, Bianca (Isabelle Drummond), não se conforma em perder a vida luxuosa e leva Dafne ao encontro de seu pai, Gabriel, na esperança de que eles se entendam e venham a se casar. O reencontro estremece o modo de vida e as convicções dos dois, que terão que lutar contra os malentendidos do passado e seu próprio orgulho para enfim se renderem ao amor que ainda os une.

Durante os quatro meses iniciais, Caras e Bocas entreteve e surpreendeu com uma trama ágil, objetiva, repleta de situações românticas e divertidas. As mentiras de Leia e Jacques, que separaram Dafne e Gabriel quando adolescentes, não demoraram a vir à tona, e a heroína ainda tentou realizar vários casamentos fajutos com pretendentes diversos antes de unir-se em matrimônio a quem realmente amava.
O interessante foi observar que, apesar da aparente simploriedade do texto, Caras e Bocas suscitou um debate de valores em meio às controvérsias de Dafne e Gabriel: pode um casal colocar os sentimentos acima do choque de gênios e de convicções para, ainda assim, conseguir ser feliz unido?
Outro ponto foi a eliminação do maniqueísmo nos personagens principais, percebida nas tentativas frustradas de casamento por conveniência da própria mocinha, Dafne, e dos meios nem sempre honestos a que recorreu Bianca para impedir que seus pais se unissem a outros cônjuges.
A novela corria bem, porém começou a se perder a partir do momento em que Dafne e Gabriel se casaram, se entenderam e descobriu-se, afinal, que Jacques não havia morrido. Desde então, o par principal perdeu força no enredo, e suas cenas resumiam-se ao desejo e às tentativas de gerarem outro filho – e dá-lhe alarmes falsos, testes negativos e outras situações corriqueiras que não servem para mote de novela alguma. Com isso, as subtramas começaram a ganhar destaque em Caras e Bocas: o complicado romance entre o interesseiro Nicholas (Sérgio Marone) e a romântica Milena (Sheron Menezes); e a relação inusitada entre a cinquentona Leia e o jovem Cássio, que deixou de ser gay para ficar com ela.
Ainda assim, aos poucos foi ficando claro que Caras e Bocas estava se tornando vítima de seu principal atrativo: a agilidade e objetividade. Não havia enrolações, as situações eram rápidas e se resolviam em poucos capítulos, o que implicava numa demanda imensa de novos conflitos e reviravoltas a cada semana. Por isso, a novela acabou várias vezes recorrendo ao recurso de “encher lingüiça”, com invenções que não deram em nada – como a suspeita de que Cleo (Renata Castro Barbosa) fosse filha de Frederico (Fúlvio Stefanini) – e histórias boas que acabaram se perdendo de tão alongadas que foram – o caso de Milena e Nicholas nos meses finais da novela.
O judaísmo
Não se pode negar, contudo, que essa fase “abaixo Dafne e Gabriel” teve seus bons momentos. A começar pela emancipação do núcleo judeu, que acabou sendo responsável pelo que de mais interessante havia na ala dramática da novela. Manteve-se o mesmo ritmo ágil e imprevisível dos outros núcleos, porém de forma linear, sem invenções desnecessárias, e com muitas reviravoltas.
O judeu ortodoxo Benjamim (Sidney Sampaio) abdicou de sua cultura e do noivado com Hannah (Júlia Lund) para viver um amor pela sensual Tatiana (Rachel Ripani) – mas não segurou a barra quando a jovem sofreu de câncer de mama. Decepcionada, Tatiana acabou encontrando consolo nos braços de Isaac (Theodoro Cochrane), que a convenceu a se converter ao judaísmo. Curada, Tatiana se casou com Isaac, seu protetor. Benjamim acabou solitário rumo a Israel, abandonado também por Hannah – que o trocou por alguém de outra cultura, Vicente. Por essas e por outras, esta análise considera o núcleo judaico o ponto mais acertado de Caras e Bocas.
Simone e Dênis
Uma área controversa da novela foi o espaço co-protagônico que se pretendia dar ao pintor Dênis (Marcos Pasquim) e à sua relação com a abilolada galerista Simone (Ingrid Guimarães). A participação de Dênis com relação à usurpação autoral das pinturas do macaco Xico (a encantadora chimpanzé Kate) e a outros temas – como a falsificação de quadros clássicos ordenada por Judith – sempre esteve satisfatória, mas o romance com Simone, em compensação, naufragou sem nunca ter decolado.
Por causa da gravidez de Ingrid Guimarães, o autor foi obrigado a também “engravidar” Simone e mantê-la em posição neutra durante boa parte da história, sem interferir em nada. Tirando a última semana em que Ingrid esteve na trama antes de dar à luz, sua Simone só veio a ter o merecido destaque quando retornou após a gestação e finalmente o namoro com Dênis engrenou – em cenas divertidíssimas, diga-se de passagem, embora derradeiras. É compreensível que tal “falha” tenha se devido a uma situação de bastidores, mas ainda assim lamenta-se que um núcleo que prometia tanta diversão tenha rendido tão pouco.
Elenco: mais altos que baixos

Em termos de elenco, Caras e Bocas foi muito feliz. Flávia Alessandra e Malvino Salvador cativaram e emocionaram com seus Dafne e Gabriel, que só pecaram, conforme já mencionado, pela perda vertiginosa de protagonismo a partir de certo ponto da trama. Os “mirins” Isabelle Drummond e Miguel Rômulo foram simplesmente geniais como a intrépida dupla Bianca e Felipe, e são duas promessas para o futuro da TV brasileira – o que também inclui David Lucas (“Espeto”). Sheron Menezes, Marcos Breda (Pelópidas), Deborah Evelyn, Elisabeth Savalla (Socorro) e Suzana Pires (Ivonete) são outros que merecem menções honrosas pela competência de seus trabalhos.
Entre os poucos que decepcionaram, há o caso de Júlio Rocha (Edgar), Júlia Lund, Maria Clara Gueiros (Lili) e Henri Castelli, por atuações demasiado apagadas ou monótonas. Também vale citar o desperdício de atores ótimos, como Ary Fontoura e Dhu Moraes (Dirce), em papéis que não estavam à altura de seu talento.
Em suma, Caras e Bocas foi uma novela que “fisgou” completamente o público durante toda sua exibição. Entre erros e acertos, destacou-se ainda pela abordagem leve, mas sem banalizar, panos-de-fundo como o tráfico de animais e a “moda de vanguarda” nas artes plásticas. Uma fórmula bem-sucedida, que deve ser repetida pela Globo em produções futuras.
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