>"QUASE ANJOS" – 1ª temporada (Argentina, 2007) – Resenha crítica

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(Felipe Brandão)

A Rede Bandeirantes estreou na segunda quinzena de março a novela argentina infanto-juvenil Quase Anjos (Casi Ángeles, Cris Morena Group, 2007-no ar), que leva a assinatura de Cris Morena – a mesma de Rebelde, Chiquititas e Floribella. Sucesso na Argentina e no mundo, já está em sua quarta temporada e não tem previsão de terminar tão cedo. No Brasil, por uma questão de marketing, a Band optou por transmitir Quase Anjos a partir da segunda temporada, exibida em 2008 e a de maior sucesso. Por isso, o Além do Entretenimento foi conferir diversos capítulos da fase inicial (que tem torno de 160 capítulos) para poder depurar a qualidade de Quase Anjos desde seus primórdios.

A premissa é simples e manjada: Bartolomeu Bedoya Agüero (Alejo García Pintos) é um ricaço decadente que abriga sete crianças e adolescentes órfãos dentro de uma fundação beneficente sediada em sua própria mansão. A desculpa seria dar a esses menores desamparados a oportunidade de uma vida digna, que de modo algum teriam nas ruas; mas não passa de fachada: Bartolomeu submete seus “pimpolhos” a maus tratos, trabalhos forçados e ainda os obriga a roubar, enquanto se apropria do subsídio do governo para mantê-los. A triste rotina desses jovens muda com a chegada da ex-bailarina Cielo Mágico (Emilia Attias), que vai trabalhar ali como assistente e desperta neles o desejo de mudar de vida. Os mistérios sobre a origem de Cielo estão intimamente ligados àquele lugar: desmemoriada, ela não sabe ser a neta desaparecida dos antigos donos da mansão e portanto herdeira legítima da fortuna de que Bartolomeu tenta se apropriar.

Ao mesmo tempo, a heroína se apaixona pelo atrapalhado arqueólogo Nícolas Bauer (Nicolás Vázquez), noivo da fútil e egoísta Malvina (Gimena Accardi), irmã de Bartolomeu, que precisa se casar com ele para ter acesso à sua parte da tal herança. Há também um núcleo principal adolescente, formado pelos quatro internos mais velhos da fundação, Mar (Mariana Espósito), Tato (Nicolás Riera), Jasmim (María Eugenia Suárez) e Rama (Gastón Dalmau), e o filho de Bartolomeu, Thiago Bedoya Agüero (Juan Pedro Lanzani), os quais no decorrer da temporada se unem a Cielo para formar a banda Teen Angels – sucesso dentro e fora da telinha.

A primeira semana de Quase Anjos é até interessante, mas a partir disso começa a enveredar por cenas de humor constrangedoras, nas quais sobram “caras e bocas” dos atores e faltam risos do público. Por incrível que pareça, os responsáveis por momentos tão desnecessários são justamente o núcleo adulto, como Cielo, Nícolas e Malvina. A ala adolescente consegue se sobressair, com uma trama fresca e adocicada, muitas vezes emocionante também. Destaque para a história de amor entre Mar e Thiago – contém todas as características do melodrama clássico, o que, somado ao tom terno de início da adolescência vivido por seus protagonistas, beira o irresistível. Outro grande problema detectado nesse início da novela é que Cris Morena procurou unir características marcantes de suas obras anteriores, o que confere uma identidade confusa e um gosto desagradável de “déja vu” ao produto.

Por volta do capítulo 60, Quase Anjos começa a sofrer ajustes que vão tornando-a cada vez melhor. As comédias exageradas de Nico e cia. vão se extinguindo, as subtramas juvenis são incrementadas e o foco da novela passa a ser o drama familiar. As intrigas, romances, rivalidades e segredos típicos dos folhetins se fazem presentes agora tanto na parte adulta como juvenil; o humor continua existindo, mas dessa vez bem-dosado e restrito a poucos personagens. Os métodos desumanos de Bartolomeu no trato das crianças ficam mais evidentes, até chocantes. Os capítulos adquirem ritmo extremamente ágil e eletrizante, com direito inclusive a cenas de ação e violência. Cris Morena estava reinventando Quase Anjos!

Infelizmente, a novela se perde depois. Com tantas situações marcantes e ágeis acontecendo, os temas dos capítulos são trocados rapidamente, e chega uma hora em que é cansativo ver tantas desgraças acontecendo, uma a uma, às mesmas pessoas. Provavelmente tivesse sido melhor encerrar a novela com menos episódios, ou mesmo alongar o desfecho de algumas situações, do que permitir que o desgaste da fórmula, tão acertada no começo. Além disso, Quase Anjos peca pelo excesso de carga dramática e mesmo de violência sobre os conflitos com as crianças, como o momento em que Bartolomeu e Justina (Julia Calvo) fazem tortura psicológica com Aleli (María Guadalupe Antón) ou quando o delegado Azúcar (Tony Lestingi) ordena a Malala (Graciela Stefani) que mate a pequena Liz (Florencia Cagnasso), irmã de Cielo. Ao invés de sentir adrenalina, o telespectador era chamado à aflição ou mesmo à repugnância por momentos descabidos assim.

O elenco cumpriu bem seus papeis. Mariana Espósito e María Eugenia Suárez se sobressaíram como Mar e Jasmim, sobretudo a segunda, que não era tão famosa. Dos rapazes, Juan Pedro Lanzani e Gastón Dalmau infelizmente demonstraram ser mais belos do que talentosos; muitas vezes faltou-lhes mais carisma na pele de Thiago e Rama, ao contrário de Nicolás Riera – além de bonito, afinado em todos os tons de seu Tato. Dentre os adultos, Emilia Attias foram intérpretes nada mais que razoáveis como os heróis Cielo e Nico. Alejo García Pintos, ator soberbo que é, destacou-se como o cruel Bartolomeu, que fazia rir e causava pavor com a mesma facilidade.

No entanto, ninguém brilhou mais na atração do que as duas atrizes Julia Calvo e Gimena Accardi. A primeira foi digna de todos os elogios, natural e humana mesmo em meio ao estereótipo e cacoetes da amarga Justina, sem falar no modo como distinguiu esta de seu outro papel, a divertida Felicidade. Já Gimena oscilou do drama à comédia com perfeição na pele de Malvina. Poderia ter sido só mais uma caricatura de vilã, mas a criatividade e as matizes fantásticas que a personagem foi adquirindo fizeram dela um dos pontos mais acertados da novela, tanto nesta temporada como na seguinte.

Quase Anjos 2007 soube dar a volta por cima de um início ruim e encontrar seu caminho na aderência a recursos pouco comuns às novelas de Cris Morena, a agilidade e a violência, e teria se dado bem continuamente se não tivesse carregado tanto na fórmula que a resgatou. Não é o tipo de novela que se queira acompanhar fielmente, mas com certeza contém pontos que merecem ser valorizados. Talvez sua exibição no Brasil fosse propícia com alguns cortes, ou mesmo na “versão reduzida”, em 25 capítulos, criada pelos produtores em 2009 para exportar o programa.

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One Response to >"QUASE ANJOS" – 1ª temporada (Argentina, 2007) – Resenha crítica

  1. Léo ¬¬ says:

    >Gastón Dalmau mais belo que talentoso? Onde?

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