>"NEGÓCIO DA CHINA" (Globo, 2008) – O melhor e o pior

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Negócio da China
(Brasil, novembro/2008-março/2009)

(Globo, 18h – Com Grazi Massafera, Fábio Assunção, Ricardo Pereira, Bruna Marquezine e Thiago Fragoso. Texto de Miguel Falabella, direção de Mauro Mendonça Filho)


(Felipe Brandão)

O MELHOR

– Inovação dos argumentos: eram espetacularmente criativos, diversificados e com qualidade cinematográfica. O casal principal, Lívia (Grazi Massafera) e Heitor (Fábio Assunção), já era casado desde antes do início da estória e começava a novela separado. As mães dos próprios se encarregavam de separá-los, dispensando assim a ação de uma antagonista interessada em Heitor. O núcleo co-protagônico, formado pelas famílias Dumas e Fontanera, também vinha impregnado desse gostinho de novidade, com a história de um rapaz (Diego / Thiago Fragoso) que descobria ser fruto de uma inseminação artificial e ia em busca do pai biológico.

– Construção dos personagens: rompimento de estereótipos consagrados em prol da humanização de seus perfis. Soava muito real, por exemplo, a inveja que Denise (Luciana Braga) sentia da irmã Júlia (Natália do Vale), a frustração em relação ao seu fracasso pessoal ante o êxito da outra era visível e justificado em todos os aspectos. Houve também o contraponto sutil entre os dois “amores” de Diego Dumas: sua namorada Celeste (Juliana Didone), apaixonada sim por ele, porém deslumbrada pelo luxo, pela vaidade e de ética questionável; e sua amiga – e pretendente em secreto – Antonella (Fernanda de Freitas), rica, inteligente e bem-sucedida, só que mais dada à generosidade e discrição do que aos impulsos e à ostentação.

– Diálogos: cuidadosamente trabalhados – ao menos pelo que se via a princípio. Miguel Falabella imprimia qualidade artística ao texto de seus personagens, sob vários aspectos: os diálogos possuíam subjetividade, arte mesmo. Além disso, havia um cuidado interessante em que as ações dos personagens fossem condizentes com seus perfis, evitando qualquer descompasso nesse sentido.

– Pontos altos do elenco: interpretações marcantes de alguns atores. Vera Zimmermann e Luciana Braga chamaram a atenção, pela primeira vez em anos, como a perua Joelma Bertazzi e a recalcada Denise. O já citado contraponto entre Juliana Didone e Fernanda de Freitas foi um dos “musts” da novela, até graças ao desempenho bem dosado e sem afetação das atrizes, sobretudo de Fernanda. Grazi Massafera foi no mínimo uma grata surpresa, “ganhando” público e crítica como a sofrida mocinha Lívia – um dos pontos mais clássicos encontrados neste folhetim. Cláudia Jimenez, como a trambiqueira Violante, também merece destaque.

O PIOR

– Problemas nos bastidores: dificuldades na escalação e manutenção do elenco ofuscaram o enredo no interesse da mídia e do público. Em primeiro lugar, a novela à parte que foi a escolha da atriz principal: desde a recusa de Flávia Alessandra, inicialmente idealizada para viver Lívia, até a aceitação a contragosto de Grazi Massafera. Em seguida, um fato quase inédito na TV brasileira: o protagonista Fábio Assunção teria que sair de Negócio da China para tratar de problemas com drogas. Seu personagem Heitor, que deveria ter vivido um grande amor com Lívia, desapareceu e foi encontrado morto muito depois. Thiago Lacerda deveria ter preenchido a vaga de galã como o médico Otávio, mas o personagem só entrou de fato na reta final e acabou nem se envolvendo com Lívia, interpretado por um ator nada a ver (Dalton Vigh) e atendo-se a conquistar Celeste.

– Empobrecimento do enredo: problemas nos bastidores desvirtuaram e assolaram a trama, tornando-a confusa, desmotivante e beirando o ridículo. Lívia e seu galã improvisado João (Ricardo Pereira) careceram de destaque como casal no folhetim, já que não havia uma disputa amorosa que os envolvesse – a oposição do filho de Lívia, Theo (Eike Duarte), foi o maior obstáculo ao romance. Outra decepção: Lívia nunca se envolveu com a trama do pendrive, os Fontanera e os Dumas também não, e a historinha da máfia chinesa acabou se concentrando mais no núcleo infanto-juvenil, encabeçado pela menina Flor de Lys (Bruna Marquezine). Quanto ao mais que citado triângulo Diego-Celeste-Antonella, a brilhante composição dos personagens e do próprio argumento não esteve correspondida pelo desenvolvimento da narrativa em si. A bem da verdade, a única invenção boa dessa fase ruim de Negócio da China foi a aliança entre os vilões Denise e Ramiro (Rodrigo Mendonça), que movimentou um pouco a novela, embora bem menos do que poderia.

– Excesso de realismo fantástico: inicialmente bem dosado, o realismo fantástico chegou a centralizar alguns capítulos de Negócio da China. No princípio, esse recurso se resumia a algumas cenas em que Flor de Lys e o chinês Liu se encontravam em outro plano, o que soava até “bonitinho”. Mais tarde, porém, grande parte da trama do pendrive passou a se centrar nos acontecimentos daquele plano! Os vilões ligados à máfia chinesa aprisionaram Flor de Lys nessa outra dimensão, fazendo-a entrar em coma no mundo real e obrigando a toda uma operação de salvamento. Negócio da China tornou-se uma novelinha infanto-juvenil, investindo no mesmo segmento que “desconsagrara” produções como Bang Bang (Globo, 2005) e Os Mutantes (Record, 2007-2009).

– Empobrecimento do roteiro: a qualidade excepcional do texto se perdeu no decorrer do trabalho. Isso talvez se deva a um certo desânimo de Miguel Falabella, diante de tantos problemas nos bastidores – depois da perda do protagonista, a novela toda desandou. Personagens com certa complexidade, como Antonella, Denise, Celeste, Matilde (Bia Nunnes), perderam esse acento e reduziram-se aos típicos clichês, casos melhor reconhecidos nas duas primeiras. Os diálogos rumaram para o mesmo caminho, ficando no “água-com-açúcar” de sempre. Houve, contudo, exceções. O romance entre Júlia e Adriano (Hérson Capri), por exemplo, ganhou uma abordagem mais realista e complexa, e menos romântica, apesar do desfecho clichê nos últimos capítulos.

– Pontos baixos do elenco: houve também os atores que decepcionaram no elenco de Negócio da China. O núcleo envolvido com a máfia chinesa foi campeão nesse sentido: Jui Huang, apesar de bonitinho, é um péssimo ator, inexpressivo ao extremo. Anderson Lau, como o vilão Wu ou “falso Liu”, ganharia facilmente o título de antagonista mais insosso e sem noção da história das novelas, sua atuação nem merece comentários. A bela Déborah Kalume também careceu de talento e expressão ao compor sua Edilza.

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