>"TROPA DE ELITE 2" – Crítica do filme

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(Felipe Brandão)

O filme brasileiro mais ansiado de 2010 faz jus às suas expectativas. Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro cativa e envolve o público com uma abordagem sarcástica e ao mesmo tempo realista, um enredo impactante e cruel às últimas conseqüências. Como se fosse pouco, a segunda parte da saga do Capitão Nascimento (Wagner Moura) é sob muitos aspectos superior à primeira.
Mesmo após ter elegido e preparado André Mathias (André Ramiro) para ocupar seu posto de capitão do Bope, descobre-se que Nascimento logo teve de retomar suas atividades na tropa, desta vez como tenente-coronel, gerando uma nova crise em sua família. Nascimento se divorcia de Rosane (Maria Ribeiro) e esta contrai segundas núpcias com o professor esquerdista Fraga (Irandhir Santos), entusiasta dos direitos humanos e crítico ferrenho dos métodos do Bope. Se na vida pessoal as coisas não vão bem, profissionalmente o quadro promete ser outro: Nascimento é promovido a subsecretário de segurança do Estado do Rio de Janeiro, iniciando a partir daí um ousado plano de erradicação do tráfico dominante nas favelas fluminenses.
Seria um êxito incontestável, se não fosse pelos graves efeitos colaterais: a milícia corrupta, sem mais a “mesada” dos traficantes falidos, passa a cobrar “impostos” da própria comunidade da favela para protegê-la, gerando mais corrupção e opressão nesse campo social. O contexto inesperado terminará por reunir a Nascimento, Fraga, Mathias, Rosane e até ao filho adolescente do protagonista, Rafael (Pedro Van Held), em um perigoso e violento jogo de interesses, com consequências imprevisíveis e no qual as posições de aliados e rivais, vilões e vítimas serão postas em xeque a todo momento.
Tropa de Elite 2 chama a atenção pelo modo peculiar e eficaz como disfarça seu lado comercial. O pretexto da “retratação nua e crua” da realidade, o tom acentuadamente coloquial dos diálogos e a opção pela câmera em movimento em quase a totalidade da filmagem dão a ideia de um documentário ou mesmo um vídeo caseiro. Isso não apenas facilita, como potencializa significativamente a identificação com os personagens, que fogem a estereótipos e soam bastante humanos. Assim, o envolvimento do espectador com as situações mostradas é muito profundo, levando-o a experimentar emoções à flor da pele como dificilmente o cinema “comum” conseguiria.
O roteiro é muito bom: além de bem-amarrado, leva a história a um rumo imprevisível, impedioso, às últimas consequências. Ao contrário da primeira parte, que investiu pesado na violência, tiroteios e torturas do Bope, este se sobressai pelo pano-de-fundo político e a pesada crítica social. As cenas de violência ainda existem, e ainda chocam, mas são tão adequadas e inerentes ao contexto que não causariam, por si sós, o mesmo impacto do filme anterior. Tanta qualidade é manchada apenas por duas falhas. Foi conferido um destaque desnecessário ao filho do Coronel Nascimento, cujo envolvimento com a maconha e consequentes problemas com a polícia são alheios ao centro da história e nada acrescentam à mesma. Além disso, o desfecho acaba soando apressado, superficial e demasiadamente aberto, mesmo que sugira um gancho intencional para um futuro Tropa de Elite 3.
No elenco, quase todos os atores satisfazem. Os maiores aplausos vão para Wagner Moura, grande ator brasileiro que, se já marcara o primeiro Tropa de Elite, nesta sequência brilha como um Nascimento mais envelhecido, cheio de conflitos e angústias internas. André Mattos também se destaca na pele do deputado Fortunato: sua interpretação é a própria expressão do sarcasmo sutil e inteligente, embora o ator tenha recorrido aos mesmos cacoetes com que se apresenta em novelas e programas de humor. Os ótimos Sandro Rocha e Milhem Cortaz fazem-se notar como os milicianos Rocha e Fábio, principais antagonistas do filme. Na contrapartida, a atuação fraca e inexpressiva do adolescente Pedro Van Held é condizente com a relevância patética das peripécias de Rafael Nascimento na história.
Tropa de Elite 2 é um longametragem excelente, que já se pode considerar um dos melhores frutos da nova safra do cinema brasileiro. Intenso, cruel, emotivo e realista, é impossível assistir-lhe e sair indiferente. Resumindo: um filme imperdível.
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